O violão é um instrumento musical de cordas dedilhadas que encanta pessoas ao redor do mundo há séculos. Sua história remonta a civilizações antigas e sua evolução ao longo do tempo resultou em uma variedade de estilos e técnicas que o tornaram um dos instrumentos mais populares e versáteis da música. Neste artigo, exploraremos a fascinante história do violão, desde suas origens até os dias atuais.
O violão é um dos instrumentos musicais mais populares e amados em todo o mundo. Presente em roda de samba, shows de rock, serenatas românticas e concertos eruditos, ele conquista gerações com seu som inconfundível e versatilidade. Mas você sabia que a história do violão remonta a milhares de anos? Ao longo dos séculos, esse instrumento de cordas dedilhadas evoluiu e se espalhou pelos continentes, incorporando influências de diferentes culturas. Neste artigo, vamos embarcar em uma viagem no tempo para conhecer a história do violão, desde as suas antigas origens até a sua importância nos dias de hoje, explorando como surgiu, se desenvolveu e ganhou o mundo.
O Surgimento do Violão
A história do violão remonta aos primórdios da civilização, onde instrumentos musicais de cordas já eram utilizados. Embora a origem exata do violão seja incerta, instrumentos semelhantes podem ser encontrados em civilizações antigas como a Grécia e a Roma. Esses instrumentos evoluíram ao longo do tempo e chegaram à Península Ibérica durante a Idade Média, onde ganharam popularidade.
Origens Antigas do Violão: Instrumentos de Corda e Influências Culturais
As raízes do violão são profundas e se perdem na antiguidade. Instrumentos semelhantes ao violão atual existiam há mais de dois ou três milênios. Evidências históricas indicam que povos antigos já tocavam instrumentos de cordas com formato aproximado ao do violão. Por exemplo, na Mesopotâmia (região da atual Iraque) foram encontradas gravuras datadas de cerca de 1800 a.C. mostrando figuras tocando instrumentos de cordas que lembram um violão primitivo – com corpo achatado e braço alongado. Ao mesmo tempo, em diversas partes do mundo antigo, surgiram instrumentos de corda dedilhados que podem ser considerados antepassados do violão, cada qual contribuindo de maneira única para a forma final que o instrumento teria no futuro. Entre as principais influências culturais na origem do violão, destacam-se as tradições greco-romanas e árabes, cujos instrumentos e práticas musicais pavimentaram o caminho para o violão que conhecemos. Duas teorias principais procuram explicar como esses antepassados contribuíram diretamente para o surgimento do violão no Ocidente.
Raízes Greco-Romanas do Violão
Uma linha de estudiosos defende que o violão descende de instrumentos da antiguidade clássica greco-romana. Nessa hipótese, a história começa com a kithara grega – um instrumento de cordas tocado na antiguidade – que foi adotada e modificada pelos romanos. Os romanos chamavam esse instrumento de cítara romana (do latim cithara), também conhecida como fidícula. Acredita-se que, por volta do século I d.C., os romanos tenham levado essa cítara para a Península Ibérica. Com o tempo, a cítara de inspiração grega sofreu transformações importantes: as duas “asas” laterais típicas da lira teriam se unido para formar uma caixa de ressonância única, e a ela foi acoplado um braço alongado com cravelhas (pinos de afinação) e cordas esticadas. Além disso, trastes passaram a ser colocados nesse braço, permitindo obter diferentes notas ao pressionar as cordas – um princípio essencial do violão. Essas modificações resultaram em um instrumento de braço reto e caixa de madeira, considerado pelos adeptos dessa teoria como o protótipo do violão. Ao longo dos primeiros séculos após Cristo, esse instrumento ancestral teria convivido com outros alaúdes e violas pelo sul da Europa, preparando terreno para o surgimento das primeiras guitarras medievais de que se tem notícia.
Contribuições do Alaúde Árabe
Outra corrente atribui a origem do violão à influência árabe na Europa, especialmente na Espanha medieval. De acordo com essa teoria, o violão derivou do antigo alaúde árabe (al-‘ud, que em árabe significa “a madeira”). O alaúde foi introduzido na Península Ibérica por volta do século VIII, durante as invasões muçulmanas. Os conquistadores mouriscos levaram consigo sua rica tradição musical, e o alaúde rapidamente se adaptou aos costumes locais, tornando-se popular nas cortes e centros culturais da região. Esse instrumento do mundo islâmico tinha um formato característico: corpo ovalado com fundo curvo (semelhante a uma tigela) e várias cordas duplas tocadas com um plectro (uma palheta antiga). Na Espanha, por volta dos séculos XII e XIII, documentos e ilustrações da época – como as cantigas de Santa Maria, compiladas pelo Rei Afonso X, o Sábio – indicam a existência de dois tipos de guitarras medievais tocadas lado a lado. Uma era chamada de guitarra mourisca, claramente inspirada no alaúde árabe: possuía corpo oval com várias aberturas sonoras ornamentadas (rosetas), braço largo e geralmente três pares de cordas duplas, produzindo um som potente e ressonante. A outra era a chamada guitarra latina, de origem europeia (associada àquela cítara greco-romana mencionada acima): esse instrumento tinha um formato aproximadamente em 8 (com curvas nas laterais do corpo), fundo plano, um único orifício sonoro circular e quatro pares de cordas tocadas com os dedos, emitindo um som mais suave. A coexistência da guitarra mourisca e da guitarra latina na Espanha medieval demonstra que tanto a herança árabe quanto a greco-romana contribuíram paralelamente para a evolução do violão. Essas duas vertentes – a do alaúde mourisco e a da viola latina – aos poucos iriam convergir e dar origem a instrumentos de cordas dedilhadas cada vez mais parecidos com o violão moderno.
O Violão na Renascença e no Barroco: Dos Pares de Cordas ao Violão de Seis Cordas
Durante os períodos da Renascença e do Barroco (séculos XVI a XVIII), o violão – então frequentemente chamado de viola ou guitarra nas línguas europeias – continuou sua evolução e ganhou popularidade nas cortes e nas ruas. No final da Idade Média e início da Renascença, era comum encontrar instrumentos com três, quatro ou cinco cordas (ou ordens de cordas, quando eram duplas). Por volta do século XV, tornou-se especialmente popular na Espanha a chamada vihuela (ou viola de mão). A vihuela era um instrumento de seis ordens duplas de cordas de tripa (totalizando geralmente 12 cordas) que combinava características do alaúde e da guitarra: tinha afinação semelhante à do alaúde renascentista, porém seu corpo era plano, com formato de 8, muito parecido com o violão. Muitos historiadores consideram a vihuela um elo importante na história do violão, representando uma transição entre o alaúde e o violão moderno. Na mesma época, em outros países europeus, prosperavam as guitarras de quatro ordens (quatro pares de cordas) – consideradas as guitarras renascentistas – e, posteriormente, as guitarras de cinco ordens no período barroco.
No século XVII (Barroco), a guitarra de cinco ordens tornou-se o instrumento predileto em diversos locais da Europa, tomando o lugar da vihuela na Espanha e se espalhando pela Itália, França e outros países. Essa guitarra barroca de cinco ordens tinha afinação A-D-G-B-E (lá, ré, sol, si, mi, da grave para aguda, faltando o equivalente ao mi grave atual), e seu porte era um pouco menor porém próximo ao tamanho de um violão contemporâneo. Com cinco pares de cordas, permitia uma gama sonora ampla para a música da época. A construção desses instrumentos no Barroco era bastante refinada – muitos luthiers (construtores de instrumentos) italianos e franceses produziram guitarras belíssimas e ornamentadas. Foi durante o final do período Barroco e o início do período Clássico (fins do século XVIII) que ocorreu uma mudança crucial: adicionou-se finalmente uma sexta corda ao instrumento. Gradualmente, as ordens duplas foram sendo substituídas por cordas simples, e a guitarra de seis cordas simples emergiu. Há registros do final do século XVIII de guitarras de seis cordas simples na Europa – por exemplo, em 1779, um luthier napolitano chamado Gaetano Vinaccia construiu uma guitarra de seis cordas que é frequentemente citada como uma das mais antigas guitarras de seis cordas sobreviventes. Nesse momento, podemos dizer que o violão estava muito próximo de sua forma atual, faltando apenas alguns ajustes e padronizações que viriam a seguir. Com seis cordas individuais afinadas (originalmente afinadas em E-A-D-G-B-E, ou seja, Mi, Lá, Ré, Sol, Si, Mi), o instrumento entrou no século XIX pronto para passar por uma verdadeira revolução em seu design e se tornar o violão clássico moderno.
O Violão Clássico Moderno no Século XIX: Torres e a Padronização do Instrumento
No século XIX, o violão finalmente assumiu as características do violão clássico moderno que reconhecemos hoje. Durante as primeiras décadas de 1800, o violão ganhou espaço tanto na música popular quanto na música erudita na Europa, porém ainda havia variações no tamanho, formato e afinação do instrumento de acordo com cada fabricante ou região. A virada decisiva veio a partir do trabalho de um luthier espanhol chamado Antonio de Torres Jurado. Entre as décadas de 1850 e 1870, Torres empreendeu inovações que estabeleceram o padrão do violão clássico: ele ampliou significativamente o corpo do violão, dando-lhe maior volume acústico e projeção sonora; definiu o comprimento do braço e da escala com precisão (fixando a medida do comprimento vibrante das cordas em cerca de 65 cm); introduziu o desenho moderno do interior da caixa de ressonância com o leque harmônico (barras de reforço dispostas em forma de leque sob o tampo, para otimizar a vibração); e padronizou o número de trastes (usando geralmente 19 trastes no braço). Além disso, Torres confirmou e popularizou a afinação padrão em Mi-Lá-Ré-Sol-Si-Mi (E-A-D-G-B-E) para as seis cordas, que já vinha sendo usada, consolidando-a de vez como a forma universal de afinar o violão. As guitarras construídas por Antonio de Torres exibiam um timbre rico, volume sonoro superior e eram mais confortáveis de tocar, tornando-se modelo para os luthiers posteriores. Graças a essas melhorias, o violão ganhou status como instrumento de concerto no final do século XIX. Compositores e violonistas virtuosos, como Francisco Tárrega na Espanha, começaram a explorar todo o potencial expressivo do violão nas salas de concerto, ajudando a elevar a reputação do instrumento. O violão, antes visto em alguns círculos eruditos como instrumento secundário ou apenas para acompanhamento, passou a ser respeitado também no meio clássico europeu. Assim, ao final do século XIX, o violão clássico já possuía a forma, o som e a afinação essencialmente idênticas às do violão de nossos dias, graças à padronização promovida pelos mestres luthiers desse período – sobretudo Antonio Torres, frequentemente chamado de “Pai do Violão Moderno”.
O Violão na Idade Média
Durante a Idade Média, o violão passou por um período de transformação e se tornou um instrumento amplamente utilizado. Naquela época, era conhecido como “vihuela” e era popular na Espanha. A vihuela tinha um formato semelhante ao do violão atual, mas com algumas diferenças estruturais. Foi um instrumento importante na música cortesã e na música popular da época.
O Renascimento do Violão
No período do Renascimento, o violão ganhou popularidade e começou a ser utilizado em diferentes regiões da Europa. Nessa época, o instrumento passou por mudanças significativas em sua estrutura, como o aumento do número de cordas e o refinamento da técnica de construção. Muitos compositores renomados, como John Dowland e Luis de Narváez, escreveram peças para o violão.
O Violão no Século XIX
No século XIX, o violão passou por mudanças significativas em sua estrutura e técnica de execução. Foi nessa época que o violão moderno, com seis cordas de nylon ou aço, se tornou mais popular. A técnica de dedilhado também foi aprimorada, permitindo uma maior expressividade musical. O violão clássico se destacou como um instrumento solo e também foi utilizado em conjuntos musicais.
O Violão no Século XX
Com o início do século XX, o violão se espalhou pelo mundo e se tornou um dos instrumentos mais populares em diversos estilos musicais. Na música popular, o violão teve um papel fundamental, acompanhando cantores e compondo canções em diversos gêneros, como o folk, o blues e o rock. Grandes artistas, como Bob Dylan e Jimi Hendrix, contribuíram para a popularização do instrumento.
Difusão Mundial do Violão no Século XX: Novos Estilos e Variedades
No século XX, o violão experimentou uma difusão global sem precedentes, tornando-se onipresente em diversos estilos musicais. Se até o século anterior o violão era associado principalmente à música clássica europeia e ao folclore de alguns países, nos anos 1900 ele se transformou em símbolo da música popular mundial. Vários fatores contribuíram para isso. Primeiro, a melhoria nos meios de produção industrial possibilitou fabricar violões em escala e a preços acessíveis, colocando o instrumento nas mãos de milhões de pessoas. Além disso, a explosão de novos gêneros musicais – como o blues, o jazz, o folk, o country, o samba, o rock e o pop – deu ao violão (e à guitarra, sua contraparte elétrica) um papel central na criação sonora do século XX. Em praticamente cada esquina do planeta, jovens aprendiam alguns acordes para acompanhar canções, enquanto músicos profissionais elevavam a técnica do violão a patamares inéditos em palcos e gravações.
Ao longo do século XX, surgiram também novas variedades de violão e instrumentos da família da guitarra, adaptados às necessidades de cada gênero musical. Entre as principais variações, podemos citar:
- Violão acústico “clássico” (cordas de nylon): é o violão tradicional, descendente direto do modelo de Torres, utilizado amplamente na música erudita e em muitos estilos populares (choro, bossa nova, flamenco etc.). Suas cordas de nylon (antigamente de tripa) proporcionam um timbre suave e cálido.
- Violão acústico folk (cordas de aço): desenvolvido principalmente nos Estados Unidos no final do século XIX e início do XX, possui um corpo um pouco maior e reforçado para suportar a tensão das cordas de aço, que produzem um som mais brilhante e potente. É muito usado em música folk, country, rock acústico e MPB.
- Violão de doze cordas: variação do violão com seis pares de cordas (12 no total), produz um som choruso e rico em harmônicos, bastante utilizado em estilos como folk rock e rock dos anos 60 e 70.
- Guitarra elétrica: criada na década de 1930, é uma evolução do violão que incorporou captadores magnéticos para amplificar o som das cordas de aço. A guitarra elétrica solidificou-se nas décadas de 1950 e 1960 com modelos icônicos (como a Fender Stratocaster e a Gibson Les Paul) e tornou-se pilar do rock, blues, jazz-fusão e muitos outros gêneros. Vale notar que, no Brasil, o termo guitarra passou a ser usado especificamente para a versão eletrificada do violão, enquanto violão continuou designando o instrumento acústico.
Além dessas, existem outras variações como o violão ressonador (usado no blues tradicional), a guitarra havaiana, entre outros, mostrando a versatilidade do instrumento. Com tanta diversidade, o violão se firmou como um dos instrumentos mais importantes do século XX, presente em palcos desde pequenos bares até grandes arenas. Grandes artistas internacionais – de Andrés Segovia e Baden Powell no violão clássico e popular, até Jimi Hendrix e Eric Clapton na guitarra elétrica – demonstraram a incrível gama de sonoridades e emoções que as seis cordas podem proporcionar. Ao final do século XX, não restavam dúvidas: o violão (em suas várias formas) havia conquistado o mundo da música, sendo o companheiro inseparável de compositores, cantores e instrumentistas nos mais diversos cantos do globo.
O Violão na Música Popular
O violão desempenhou um papel crucial na música popular do século XX, influenciando o desenvolvimento de gêneros como o folk, o blues, o country e o pop. Sua sonoridade única e sua portabilidade fizeram dele um companheiro indispensável para cantores e compositores. A simplicidade de aprender a tocar acordes básicos no violão também contribuiu para sua popularidade.
O Violão na Música Clássica
Na música clássica, o violão ganhou destaque em composições e se tornou um instrumento solo respeitado. Compositores como Fernando Sor, Francisco Tárrega e Heitor Villa-Lobos escreveram obras notáveis para o violão, explorando sua sonoridade e técnica avançada. O violão clássico continua a ser um dos pilares da música erudita contemporânea.
O Violão na Música Folclórica
O violão desempenhou um papel importante na música folclórica de diferentes regiões do mundo. Em países como o Brasil, a Espanha, o México e muitos outros, o violão é usado para acompanhar danças tradicionais, contar histórias por meio de melodias e expressar a identidade cultural de um povo. Sua versatilidade e timbre único são características valorizadas nesse contexto.
O Violão na Música Contemporânea
Na música contemporânea, o violão continua a evoluir e a se adaptar a novos estilos e abordagens musicais. Compositores e intérpretes exploram técnicas estendidas, como o uso de harmônicos, percussão na caixa de ressonância e experimentações com diferentes afinações. O violão também é amplificado eletronicamente para se adequar a ambientes musicais mais complexos.
A Influência do Violão na Cultura Musical
Ao longo de sua história, o violão influenciou a cultura musical de diversas maneiras. Sua versatilidade e popularidade o tornaram um símbolo da música e um instrumento acessível para pessoas de diferentes níveis de habilidade. O violão transcende fronteiras culturais e geográficas, conectando pessoas através da linguagem universal da música.
O Violão no Brasil
A VIOLA, instrumento de dez cordas ou 5 cordas duplas, precursor do violão e popularíssima em Portugal, foi introduzida no Brasil pelos jesuítas portugueses, que a utilizavam na catequese. Já no século XVII, referências são feitas á viola em São Paulo, uma delas colhida por Mário de Andrade: “Em 1688 surge uma certa viola avaliada em dois mil réis, preço enorme para o tempo.
E, caso curioso, esta guitarra pertenceu a um dos mais notáveis bandeirantes do século XVII: Sebastião Paes de Barros.”
Ainda na mesma obra, Mário de Andrade cita Cornélio Pires, para quem a viola é um dos instrumentos que acompanha as danças populares de São Paulo. A confusão entre a viola e violão começa em meados do século XIX, quando a viola é usada com uma afinação própria do violão, isto é, lá, ré, sol, si, mi.
A confusão no uso do termo viola/violão, continua nessa época como atesta Manuel Antônio de Almeida, autor da Memórias de um Sargento de Milícias (1854-55), quando se refere muitas vezes com terminologia da época do final da colônia, á viola em vez de violão ou guitarra sempre que trata de designar o instrumento urbano com o qual se acompanhava as modinhas.
A viola, hoje, tornou-se a viola-caipira, instrumento típico do interior do país, e o violão, depois de ter sua forma atual estabelecida no final do século XIX, tornou-se um instrumento essencialmente urbano no Brasil. O violão também tornou-se o instrumento favorito para o acompanhamento da voz, como no caso das modinhas, e, na música instrumental, juntamente com a flauta e o cavaquinho, formou a base do conjunto do choro.
Por ser usado basicamente na música popular e pelo povo, o violão adquiriu má fama, instrumento de boêmios, presente entre seresteiros, chorões, tornandos-se sinônimo de vagabundagem. Assim o violão foi considerado durante anos.
Os primeiros a cultivar o instrumento de uma maneira séria foram considerados verdadeiros heróis.
O engenheiro Clementino Lisboa foi o primeiro a se apresentar em público tocando violão, especialmente no Clube Mozart, o centro musical da elite carioca fin-de-siècle. Ainda algumas figuras proeminentes da sociedade carioca dedicaram-se ao instrumento na tentativa de reerguê-lo, tal é o caso do desembargador Itabaiana, do escritor Melo Morais e dos professores Ernani Figueiredo e Alfredo Imenes.
Um dos precursores do violão moderno no Brasil foi Joaquim Santos (1873-1935) ou Quincas Laranjeiras, fundador da revista O Violão em 1928, e que nos últimos anos de vida dedicou-se a ensinar o violão pelo método de Tárrega.
Uns anos antes, 1917, Augustin Barrios se apresenta em uma série de recitais no Rio de Janeiro, tocando o instrumento de uma forma nunca vista/ouvida antes. Segue-se a tournée de Josefina Robledo, que tendo permanecido aqui por algum tempo, estabelece os fundamentos da escola de Tárrega.
Dessa época destaca-se a agora reconhecida obra de João Teixeira Guimarães (1883-1947) ou João Pernambuco, sobre quem Villa-Lobos dizia, a respeito de suas obras: “Bach não teria vergonha de assiná-las como suas.”
Atualmente a obra de João Pernambuco é bem conhecida graças ao trabalho de Turíbio Santos e Henrique Pinto.
Aníbal Augusto Sardinha (1915-1955), o Garoto, foi um dos precursores da bossa-nova. Atualmente as excelentes obras de Garoto ganharam vida nova, graças a Paulo Bellinati, que recuperou, editou e gravou boa parte de sua obra.
Mencionamos o samba-exaltação Lamentos do Morro, os choros Tristezas de um violão, Sinal dos Tempos, Jorge do Fusa e Enigma, e a Debussyana, entre tantas outras. Ainda na linha da música popular destacam-se Américo Jacomino (1916-1977), Nicanor Teixeira, e mais recentemente a figura de Egberto Gismonti com suas obras Central Guitare e Variations pour Guitare (1970), ambas de caráter experimental.
Também Paulo Bellinati realiza excelente trabalho como compositor, obras como Jongo, Um Amor de Valsa e Valsa Brilhante já ganharam notoriedade.
O violão no Brasil passou a se desenvolver, principalmente, em dois grandes centros, Rio e São Paulo, de onde vem a maioria dos grandes violonistas brasileiros, que tiveram ou têm sua formação instrumental com os professores destas cidades.
Em São Paulo, o excepcional trabalho desenvolvido pelo violonista uruguaio Isaías Savio (1900-1977), que teve sua formação violonística com Miguel Llobet, resultou em uma das melhores escolas de violonistas da América do Sul.
Depois de residir na Argentina, Savio radicou-se definitivamente no Brasil, primeiro no Rio, depois em São Paulo. Nesta cidade, onde desenvolveu a maior parte do seu trabalho, fundou a Associação Cultural Violonista Brasileira, e em 1947 tornou-se professor de violão do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, como fundador da cadeira de violão, a primeira do país.
Ainda em 1951, participou da fundação da Associação Cultural de Violão de São Paulo. Além desta intensa atividade, Savio se distinguiu pela composição de mais de 100 obras para o instrumento e cerca de 300 transcrições e revisões.
Hoje em dia suas compilações de estudos ainda são usadas em muitas escolas por todo o país.
Entre os discípulos de Savio que mais se destacaram está Antônio Carlos Barbosa-Lima (1944), que aos 13 anos estreou como concertista e aos 14 gravou seu primeiro LP.
Barbosa-Lima é na atualidade um dos mais conceituados violonistas, tanto em concertos, como na edição, transcrição e comissão de novas obras para o instrumento. Basta dizer que a Sonata op. 47 de Alberto Ginastera foi por ele comissionada e a ele dedicada.
Henrique Pinto, também aluno de Savio, é reconhecidamente um dos mais importantes pedagogos do instrumento na atualidade. Além de desenvolver uma grande atividade como editor e revisor de obras para violão, Henrique é o responsável por uma geração dos melhores violonistas brasileiros. Entre estes estão: Angela Muner, Jácomo Bartoloni, Edelton Gloeden, Ewerton Gloeden e Paulo Porto Alegre.
Ainda de São Paulo devemos citar a Manoel São Marcos e sua filha Maria Lívia São Marcos, radicada na Europa, e Pedro Cameron, também compositor de excelentes obras como Repentes, vencedora do 1º Concurso Brasileiro de Composição de Música Erudita para piano ou violão – 1978.
No Rio, destaca-se a figura de Antônio Rebelo (1902-1965), que também foi aluno de Savio quando da residência deste no Rio. Rebelo desenvolveu atividades como docente, impulsionando o violão na cena musical.
Entre seus discípulos estão Jodacil Damasceno, Turíbio Santos, Sérgio e Eduardo Abreu.
Jodacil Damasceno (1929), além dos estudos com Rebelo, estudou com Oscar Cáceres.
Turíbio Santos (1943), também estudou com estes dois mestres e com Julian Bream e Andrés Segóvia. Santos foi o primeiro brasileiro a vencer, em 1965, o Concurso Internacional de Violão da O.R.T.F., em Paris.
Fez a primeira gravação integral dos doze Estudos de Villa-Lobos e participou da estreia mundial do Sexteto Místico, também de Villa-Lobos.
Turíbio é um dos maiores divulgadores da obra do grande compositor brasileiro e hoje dirige o Museu Villa-Lobos no Rio.
Os irmãos Abreu, Sérgio (1948) e Eduardo (1949), desenvolveram uma das mais brilhantes carreiras de concertistas internacionais. Ambos estudaram com seu avô Antonio Rebelo e com Adolfina Raitzin de Távora.
Foram premiados, em 1967, no Concurso Internacional de Violão da O.R.T.F.. Realizaram inúmeras gravações na Inglaterra, e se destacaram como um dos melhores duos de violão de todos os tempos.
Atualmente, Sérgio dedica-se á construção de violões. Ainda devemos mencionar outros violonistas cariocas como Léo Soares, Nicolas Barros, Marcelo Kayath, também premiado em Paris, e o brilhante Duo Assad, formado pelos irmãos Sérgio e Odair.
A música brasileira para violão tem se desenvolvido, praticamente, á sombra da excepcional, embora pequena, obra de Villa-Lobos, que continua sendo a mais conhecida nos meios violonísticos nacionais e internacionais. Alguns compositores tentaram reprisar o sucesso dos 12 estudos.
Este é o caso de Francisco Mignone (1897-1986), que com sua série de 12 Estudos (1970), dedicados e gravados por Barbosa-Lima, não obteve o sucesso musical almejado.
Já o mineiro Carlos Alberto Pinto Fonseca (1943), compôs Seven Brazilian Etudes (1972), também dedicados a Barbosa-Lima, nos quais demonstra um nacionalismo e lirismo da mais pura escola nacionalista.
O compositor paulista Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993), uma das figuras mais proeminentes da música brasileira escreveu pouco, mas bem, para violão. O Ponteio (1944), dedicada e estreada por Abel Carlevaro, a Valsa-Choro e os três pequenos Estudos, apresentam-se com uma linguagem mais livre da influência da obra violonística de Villa-Lobos.
Mais original quanto a sua linguagem musical é a obra de Radamés Gnatalli (1906-1988).
A forte ligação de Gnatalli á música popular brasileira é claramente visível em várias de suas obras que misturam a música urbana carioca a uma refinada técnica e musicalidade.
Das suas obras para violão, destacam-se os vários concertos para violão e suíte Retratos para dois violões, Sonata para violoncelo e violão e a Sonatina para violão e cravo, além da inclusão do violão em várias obras para grupo instrumental de caráter regionalista.
Edino Krieger (1928) compôs uma das mais importantes obras para o repertório dos últimos tempos. A Ritmata (1975), dedicada a Turíbio Santos, explora novos efeitos instrumentais e associa uma linguagem atonal a procedimentos técnicos utilizados por Villa-Lobos.
A obra de Almeida Prado (1943) Livro para seis cordas (1974) apresenta uma concepção musical originalíssima livre de qualquer influência violonística tradicional e que delineia bem o estilo deste compositor; esta obra ainda apresenta certas semelhanças com as Cartas Celestes (1974) para piano quanto á sua concepção sonora.
Marlos Nobre (1939) tem na série Momentos a sua obra mais importante para violão. Escrita a pedido de Turíbio Santos e projetada para 12 números, os primeiros quatro foram escritos entre 1974 e 1982.
Ainda de Nobre destaca-se a Homenagem a Villa-Lobos e Prólogo e Toccata op. 65. Para dois violões, Marlos Nobre recriou 3 Ciclos Nordestinos dos originais para piano, ótimas obras miniaturas que utilizam motivos do folclore nordestino.
Ricardo Tacuchian¹ (1939) escreveu Lúdica I (1981), dedicada a Turíbio Santos, em que apresenta uma linguagem contemporânea com toques de nacionalismo e efeitos sonoros os mais diversos.
A sua Lúdica II (1984), escrita em homenagem a Hans J. Koellreutter, é uma obra mais tradicional quanto á sua concepção sonora. Jorge Antunes (1942) escreveu Sighs (1976), na qual o autos requer uma afinação especial para o segundo movimento, uma invenção em torno da nota si.
Lina Pires de Campos escreveu o excelente Ponteio e Toccatina (1978), obra premiada no 1º Concurso Brasileiro de Composição de Música Erudita para Piano ou Violão – 1978.
Deste mesmo evento surgiram novas obras, como o já mencionado repentes de Pedro Cameron, a Suíte Quadrada de Nestor de Holanda Cavalcanti e o ótima Verdades de Márcio Cortes.
Ainda cabe aqui mecionar a obra do boliviano, radicado e ligado a Curitiba e ao Brasil durante anos, Jaime Zenamon (1953), dono de uma excelente e prolífica produção para o instrumento que tem sido extremamente bem aceita nos meios violonísticos internacionais.
Entre suas obras destacam-se Reflexões 7, Demian, The Black Widow, Iguaçu para violão e orquestra, Reflexões 6 para violoncelo e violão, e a Sonatina Andina para dois violões.
Referências Bibliográficas: A Evolução do Violão na História da Música / autor : Eduardo Fleury Nogueira / 1991 / São Paulo. História do Violão / autor: Norton Dudeque / 1958 / Curitiba.
Legado e Importância Atual do Violão
Depois de tantos séculos de transformações e viagens pelo mundo, qual é o legado do violão nos dias de hoje? Podemos dizer que o violão se tornou um verdadeiro ícone musical universal. Poucos instrumentos conseguem transitar por tantos gêneros e culturas diferentes com a facilidade do violão. Seja nas mãos de um violeiro sertanejo tocando modas de viola no interior, de um estudante praticando acordes no quarto, ou de um concertista exibindo técnica apurada em um auditório lotado, o violão mantém sua essência de instrumento versátil e expressivo. Seu legado histórico inclui um repertório riquíssimo – obras clássicas consagradas, canções populares eternizadas, solos improvisados de tirar o fôlego – e uma legião de apaixonados em todos os cantos do planeta.
Atualmente, o violão continua a ser um dos instrumentos mais vendidos e aprendidos do mundo. Parte de seu apelo está na relativa facilidade para iniciar (com alguns acordes simples já se pode acompanhar muitas músicas) combinada com a profundidade técnica para quem deseja se aperfeiçoar – um equilíbrio que atrai iniciantes e virtuoses. Além disso, a herança cultural do violão permanece viva: conhecer a história do violão nos faz valorizar ainda mais cada nota tocada, pois entendemos que dentro daquele instrumento de madeira ecoam influências de civilizações antigas, de trovadores medievais, de mestres espanhóis, de jazzistas americanos e de sambistas brasileiros.
Em suma, a jornada histórica do violão – desde suas prováveis origens na antiguidade, passando pela consolidação como violão clássico no século XIX, até a explosão global no século XX – resulta em um instrumento que é símbolo de música, arte e conexão cultural. O violão é, sem dúvida, uma peça fundamental do patrimônio musical da humanidade. E a cada vez que dedilhamos suas cordas, fazemos parte da continuação dessa história extraordinária. Assim, permanece assegurado que o violão, com todo seu legado, seguirá encantando gerações futuras e ocupando um lugar especial no coração dos amantes da música.
Conclusão
Ao explorar a história do violão, podemos compreender como esse instrumento musical icônico evoluiu ao longo dos séculos, deixando uma marca significativa na cultura musical global. Desde suas origens antigas até sua influência nos diversos gêneros musicais, o violão continua a encantar e inspirar pessoas em todo o mundo.
Se você tem interesse em aprender a tocar violão ou simplesmente apreciar sua música, essa jornada histórica certamente enriquecerá sua compreensão e apreciação desse instrumento extraordinário, veja também: Top 5 Melhores Violões para Iniciantes.
Perguntas Frequentes
Quem inventou o violão?
A origem exata do violão é incerta, mas instrumentos similares existiam em civilizações antigas como a Grécia e a Roma.
Como o violão evoluiu ao longo do tempo?
O violão passou por várias transformações ao longo dos séculos, incluindo mudanças em sua estrutura, tamanho e técnica de execução.
O violão é usado em quais gêneros musicais?
O violão é usado em uma ampla variedade de gêneros musicais, incluindo música clássica, popular, folclórica, rock, jazz e muitos outros.
Qual é a diferença entre violão clássico e violão acústico?
O violão clássico possui cordas de nylon e é frequentemente utilizado na música erudita, enquanto o violão acústico possui cordas de aço e é mais comum em gêneros populares.
Como posso aprender a tocar violão?
Existem várias opções para aprender a tocar violão, incluindo aulas particulares, tutoriais online, livros e aplicativos móveis.
Qual é o tamanho médio de um violão?
O tamanho médio de um violão varia, mas os modelos mais comuns têm cerca de 100 cm de comprimento total.
Quais são os principais fabricantes de violão?
Alguns dos principais fabricantes de violão incluem Gibson, Martin, Taylor, Yamaha e Fender.
O violão elétrico é diferente do violão acústico?
Sim, o violão elétrico possui captadores e circuitos elétricos que permitem amplificar o som, enquanto o violão acústico não possui esses componentes.
Posso tocar músicas populares no violão?
Sim, o violão é um instrumento muito versátil e pode ser utilizado para tocar uma variedade de músicas populares.
O violão é um instrumento difícil de aprender?
A dificuldade de aprender a tocar violão varia de pessoa para pessoa, mas com prática e dedicação, é possível dominar esse instrumento.
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